Posicionamento de eletrodos no ECG de cães e gatos: guia prático para um traçado limpo
Como posicionar o paciente em decúbito lateral direito, fixar os eletrodos de membro com o código de cores correto e eliminar os artefatos mais comuns: tremor, ofegação, mau contato e interferência de 60 Hz.
O posicionamento padrão para registrar um eletrocardiograma (ECG) diagnóstico em cães e gatos é o decúbito lateral direito, com os quatro eletrodos de membro fixados na altura dos cotovelos (membros torácicos) e dos joelhos ou flancos (membros pélvicos). Essa padronização importa porque os valores de referência publicados para o ECG de cães e gatos foram obtidos nessa posição; mudar a posição do corpo altera a relação entre o coração e os eletrodos e modifica a morfologia das ondas. Um traçado limpo depende de bom contato eletrodo-pele (álcool ou gel), do paciente em repouso e do controle dos artefatos mais comuns: tremor e movimento, respiração ou ofegação, mau contato e interferência elétrica de 60 Hz.
Por que o decúbito lateral direito é o padrão
Os intervalos de referência do ECG canino foram derivados de registros feitos em decúbito lateral direito, e usá-los para traçados obtidos em outra posição pode não ser válido. Em cães, registros em estação ou em decúbito lateral esquerdo mostram amplitudes de onda R e S diferentes e deslocamento do eixo elétrico em relação ao lateral direito. Em gatos a posição é menos crítica para a execução, mas o decúbito esternal ou lateral esquerdo também altera a amplitude da onda R, de modo que essas posições não devem ser usadas quando se comparam medidas com valores de referência.
Na prática, posicione o animal deitado sobre o lado direito, com a cabeça alinhada ao corpo, os membros perpendiculares ao tronco e paralelos entre si. Pequenos desvios do paciente acordado são esperados; o que se busca evitar é registrar e medir intervalos e amplitudes fora da posição de referência, o que pode levar a interpretação equivocada. A decisão sobre contenção, sedação ou posição alternativa cabe sempre ao médico-veterinário responsável, ponderando o conforto e a estabilidade do paciente.
Onde fixar os eletrodos de membro e o código de cores
Os eletrodos de membro ficam nos cotovelos (membros torácicos) e nos joelhos (membros pélvicos), não nas extremidades distais (patas). Mantenha os membros paralelos ao chão e perpendiculares ao eixo longo do paciente. O esquema clássico de quatro eletrodos é: braço direito (RA), braço esquerdo (LA), perna esquerda (LL) e perna direita (RL, o eletrodo terra).
O código de cores mais difundido (padrão AHA, comum em equipamentos nas Américas) é: branco no braço direito (RA), preto no braço esquerdo (LA), vermelho na perna esquerda (LL) e verde na perna direita (RL/terra). Um recurso de memória útil para esse padrão: do lado direito, neve sobre grama (branco no membro torácico, verde no pélvico); do lado esquerdo, fumaça sobre fogo (preto no membro torácico, vermelho no pélvico). Atenção: o código europeu (IEC) usa cores diferentes (vermelho no braço direito, amarelo no braço esquerdo, verde na perna esquerda, preto na perna direita). Confirme sempre a marcação RA/LA/LL/RL do seu aparelho antes de registrar.
Contato: álcool ou gel
Bom contato elétrico é o que separa um traçado legível de uma linha de base ruidosa. Para clipes tipo jacaré, umedeça o pelo no ponto de contato com álcool isopropílico a 70% ou gel de eletrodo (ou gel de ultrassom) e fixe o clipe junto à pele, deixando o álcool penetrar por cerca de 10 a 15 segundos. Em registros curtos o álcool funciona bem; para monitorização prolongada o gel é preferível, porque não evapora tão rápido. Quando se usam eletrodos adesivos, tricotomizar a região melhora muito a aderência e a condução.
Evite que os eletrodos toquem uns nos outros ou em superfícies metálicas, como a mesa ou as grades da gaiola, pois isso gera artefato. Reaplique álcool ou gel se o contato secar durante o exame. A escolha entre clipe e adesivo, e entre álcool ou gel, deve considerar o conforto do animal e a duração do registro, sob critério do médico-veterinário.
Os artefatos mais comuns e como eliminá-los
Tremor e movimento: aparecem como uma linha de base irregular e "peluda", de alta frequência, que pode mascarar partes pequenas do complexo. Acalme o paciente, ofereça tempo para relaxar, use contenção suave e, se houver tremor, uma mão apoiada sobre o tórax costuma ajudar. Deslocar os eletrodos mais distalmente nos membros, afastando-os da parede do corpo em movimento, também reduz o artefato.
Respiração e ofegação: o ciclo respiratório e a ofegação do cão deslocam a linha de base e podem obscurecer ondas. Mantenha o animal o mais quieto possível; em cães, fechar gentilmente a boca por instantes pode interromper a ofegação. Posicione os cabos de forma que não fiquem sobre o tórax, para que o movimento respiratório não seja transmitido aos eletrodos.
Mau contato: produz desvios bruscos da linha de base ou perda de sinal. Verifique o contato eletrodo-pele, reaplique álcool ou gel, confirme que os clipes não escorregaram e que nenhum eletrodo toca outro, metal ou pelo seco. Tricotomizar pode ser necessário em pelagens densas.
Interferência elétrica de 60 Hz: surge como oscilações finas, regulares e muito uniformes que engrossam a linha de base, com padrão "perfeito" demais para ser biológico. Em regiões com rede de 50 Hz, a frequência da interferência é 50 Hz. Afaste o equipamento e os cabos de fontes elétricas, lâmpadas fluorescentes e outros aparelhos; registre sobre superfície isolante (não metálica); garante bom aterramento e a fixação do eletrodo terra (RL). Cabos bem blindados e o filtro de rede (notch de 50/60 Hz) do aparelho ajudam a atenuar o que sobra, sem substituir o controle das fontes.
Checklist rápido para um traçado limpo
Antes de registrar, confirme: decúbito lateral direito, membros paralelos e perpendiculares ao tronco; eletrodos nos cotovelos e joelhos com o código de cores correto (RA/LA/LL/RL conferido no aparelho); álcool ou gel aplicado e contato firme; eletrodos sem se tocar e longe de metal; paciente calmo, sem ofegar; equipamento e cabos afastados de fontes elétricas e fora do tórax; aterramento garantido. Documente a posição usada junto ao traçado, para que as medidas sejam comparadas com a referência correta.
Soluções como o ECG da INpulse (incluindo os equipamentos INcardio X e INcardio Agile) registram o sinal em ambiente clínico real, onde esses cuidados de posicionamento e controle de artefato fazem a diferença entre um traçado limpo e um exame não conclusivo. A interpretação final, a conduta e qualquer decisão diagnóstica ou terapêutica permanecem responsabilidade do médico-veterinário.
Fontes
- Garcia K. Obtaining a Diagnostic Electrocardiogram. Clinician's Brief. (2016)
- Rishniw M, Porciello F, Erb HN, Fruganti G. Effect of body position on the 6-lead ECG of dogs. J Vet Intern Med. (2002) PMID 11822807
- Harvey AM, Faena M, Darke PGG, Ferasin L. Effect of body position on feline electrocardiographic recordings. J Vet Intern Med. (2005) PMID 16097093
- Electrocardiography. WikiVet.