Hipertensão arterial felina: o inimigo silencioso dos gatos idosos
A hipertensão felina costuma ser silenciosa até causar cegueira súbita, convulsões ou lesão renal. Entenda por que medir a pressão de gatos com 7 anos ou mais pode salvar a visão e a vida do seu felino.
A hipertensão arterial sistêmica felina é o aumento persistente da pressão arterial no gato, definida pelo consenso ACVIM 2018 como pressão sistólica igual ou acima de 160 mmHg associada ao risco de lesão de órgão-alvo. É chamada de inimigo silencioso porque costuma não dar sinais até danificar olhos, cérebro, coração e rins, e muitas vezes só é descoberta quando o gato perde a visão de repente. Por isso, medir a pressão em gatos com 7 anos ou mais é uma forma simples e indolor de proteger a saúde do seu felino.
Por que a hipertensão felina é silenciosa
O gato hipertenso raramente parece doente. Não há tosse, cansaço óbvio ou queda evidente de comportamento que chame a atenção do tutor nas fases iniciais. A pressão vai subindo e os vasos de órgãos delicados vão sofrendo em silêncio, muitas vezes por meses, sem nenhum sintoma perceptível em casa.
Por ser uma doença predominantemente de gatos mais velhos, ela costuma conviver com outras condições da idade, o que mascara ainda mais o quadro. Quando o sinal finalmente aparece, geralmente já é uma lesão de órgão-alvo instalada, por exemplo a cegueira súbita. Por isso a medição de pressão não deve esperar o gato ficar doente: ela é uma ferramenta de rastreio, não apenas de diagnóstico de emergência.
As causas mais comuns: doença renal crônica e hipertireoidismo
Na maioria dos gatos, a hipertensão é secundária, ou seja, surge como consequência de outra doença. As duas causas de base mais frequentes são a doença renal crônica (DRC) e o hipertireoidismo, ambas típicas do gato idoso. Em boa parte dos gatos hipertensos há sinais de doença renal crônica (em algumas séries, em até cerca de 74%, conforme o consenso ISFM), e a hipertensão também está presente em uma parcela importante dos gatos renais crônicos.
No hipertireoidismo, parte dos gatos já é hipertensa no diagnóstico e outra parcela pode desenvolver hipertensão após o tratamento da tireoide, o que reforça a necessidade de acompanhar a pressão ao longo do tempo, e não só uma vez. Uma fração menor dos casos é considerada idiopática, sem causa de base identificável, situação descrita em torno de 13% a 20% dos gatos hipertensos. A boa notícia: identificar e tratar a doença de base é parte central do manejo. A decisão sobre causa, exames e tratamento é sempre do médico-veterinário.
Lesão de órgão-alvo: o que a pressão alta destrói
Quando a pressão fica alta por tempo demais, quatro órgãos sofrem em especial: olhos, cérebro, coração e rins. O olho é o mais visível e dramático. A pressão elevada pode causar descolamento de retina, hemorragia e cegueira súbita, frequentemente o primeiro sinal que leva o tutor à clínica. O risco ocular aumenta com pressões mais altas, e em muitos casos a perda de visão é permanente, embora o tratamento precoce possa reverter parte das lesões.
No cérebro, a hipertensão pode causar sinais neurológicos como desorientação, perda de equilíbrio, convulsões, alteração de comportamento e fraqueza, descritos em uma parcela relevante dos gatos hipertensos. No coração, a sobrecarga de pressão leva ao espessamento das paredes (hipertrofia), detectado em uma proporção elevada dos casos, com sopro ou ritmo de galope possíveis ao exame. Nos rins, fecha-se um ciclo perigoso: a DRC pode causar hipertensão e a hipertensão agrava a DRC, acelerando a perda de função renal.
Como a pressão é classificada: o consenso ACVIM 2018
O consenso ACVIM 2018 organiza a pressão sistólica do gato em faixas, cada uma com um risco diferente de lesão de órgão-alvo. Isso ajuda o médico-veterinário a decidir quando investigar e quando tratar, sempre considerando exames repetidos e a presença ou não de lesão já instalada.
Faixas de pressão sistólica (risco de lesão de órgão-alvo): normotenso: menor que 140 mmHg, risco mínimo · pré-hipertenso: 140 a 159 mmHg, risco baixo · hipertenso: 160 a 179 mmHg, risco moderado · gravemente hipertenso: igual ou maior que 180 mmHg, risco alto.
O objetivo do tratamento, quando indicado, é reduzir a pressão sistólica para uma faixa segura, evitando hipotensão. O consenso ACVIM 2018 trabalha com uma hierarquia de metas: o alvo mínimo aceitável é manter a sistólica igual ou abaixo de 160 mmHg, enquanto o alvo ideal é abaixo de 140 mmHg, faixa associada ao menor risco de lesão de órgão-alvo. A escolha do medicamento, das metas e do acompanhamento é decisão clínica do médico-veterinário.
Por que medir a pressão em gatos a partir de 7 anos
Como a doença é silenciosa e mais comum em gatos mais velhos, as diretrizes recomendam incorporar a medição de pressão à rotina dos felinos seniores e geriátricos. Em linha com o consenso ISFM, gatos seniores (cerca de 7 a 10 anos) devem ter a pressão verificada pelo menos a cada 12 meses, e gatos geriátricos (a partir de 11 anos) a cada 6 a 12 meses. A pressão também deve ser medida sempre que houver DRC, hipertireoidismo ou qualquer sinal ocular ou neurológico suspeito.
A medição é rápida e indolor, feita com um manguito no membro ou na cauda, de forma parecida com a aferição em humanos. Para reduzir o efeito do estresse (a chamada hipertensão do jaleco branco), o consenso recomenda um ambiente calmo, tempo de adaptação, manguito com largura de 30% a 40% da circunferência do membro, descartar a primeira leitura e usar a média de 5 a 7 medições consistentes. Um único valor alto não fecha diagnóstico: a interpretação é sempre do médico-veterinário.
O que o tutor deve fazer
Se o seu gato tem 7 anos ou mais, peça ao médico-veterinário para incluir a medição de pressão no check-up. Se ele já tem doença renal, hipertireoidismo ou se você notou qualquer mudança súbita na visão, desorientação ou convulsão, procure atendimento sem demora, porque a cegueira por descolamento de retina pode ser uma emergência. O diagnóstico precoce é a maior chance de proteger a visão, o cérebro, o coração e os rins do seu felino.
Para a clínica, medir a pressão de forma confiável depende de equipamento adequado e de protocolo padronizado. Soluções de aferição de pressão arterial, como o BPScan e o BPScan S, foram pensadas para tornar essa medição parte simples da rotina do gato senior. Converse com o médico-veterinário sobre o rastreio de pressão: é um exame barato, rápido e que pode mudar o desfecho.
Fontes
- Acierno MJ, Brown S, Coleman AE, et al. ACVIM consensus statement: Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats. J Vet Intern Med. 2018;32(6):1803-1822. (2018) PMID 30353952
- Taylor SS, Sparkes AH, Briscoe K, et al. ISFM Consensus Guidelines on the Diagnosis and Management of Hypertension in Cats. J Feline Med Surg. 2017;19(3):288-303. (2017) PMID 28245741
- Feline Systemic Hypertension: Classification and pathogenesis (review). PMC. PMID 21215946
- Hypertension. Cornell University College of Veterinary Medicine, Cornell Feline Health Center.
- Carter J, Irving J, et al. Hypertensive ocular disease in cats: A guide to fundic lesions to facilitate early diagnosis. J Feline Med Surg. 2019. (2019) PMID 30763152
- Feline systemic hypertension. Royal Canin Academy (veterinary).