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Doença renal crônica em gatos e pressão arterial: por que medir sempre

A doença renal crônica é uma das principais causas de hipertensão arterial sistêmica no gato. Entenda por que a aferição de rotina da pressão protege olhos, coração, cérebro e o próprio rim, segundo o consenso ACVIM e as diretrizes felinas.

Doença renal crônica em gatos e pressão arterial: por que medir sempre

A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de hipertensão arterial sistêmica no gato, e por isso o consenso ACVIM (Acierno e colaboradores, 2018) e as diretrizes felinas da ISFM (Taylor e colaboradores, 2017) recomendam aferir a pressão arterial de rotina em todo paciente renal. A hipertensão é frequentemente silenciosa: pode não dar sinais até causar lesão em órgãos-alvo como olhos, coração, sistema nervoso central e o próprio rim. Por isso, medir a pressão não é exame de exceção no gato com DRC, é parte do acompanhamento. A decisão clínica final, incluindo quando tratar, é sempre do médico-veterinário responsável.

DRC e hipertensão no gato: uma relação de mão dupla

A hipertensão no gato costuma ser secundária a outra doença. A DRC e o hipertireoidismo estão entre as condições mais associadas à hipertensão felina, conforme descrito nas diretrizes ISFM. Os mecanismos pelos quais a doença renal eleva a pressão são múltiplos e incluem alterações na regulação de volume e na ativação de sistemas neuro-hormonais ligados ao rim.

Essa relação é de mão dupla. A DRC predispõe à hipertensão, e a pressão alta, por sua vez, agride o rim e pode acelerar a progressão da própria doença renal. A proteinúria, marcador relevante de prognóstico no gato renal, está associada a menor sobrevida, conforme revisado por Syme (2009), e faz parte do quadro que o clínico avalia em conjunto com a pressão arterial.

Lesão de órgão-alvo: o que a hipertensão silenciosa ataca

O grande risco da hipertensão felina é a lesão de órgão-alvo, frequentemente instalada antes que o tutor perceba qualquer mudança. Os quatro órgãos classicamente afetados, citados tanto pela ISFM quanto pelo IRIS, são os olhos, o coração e a vasculatura, o sistema nervoso central e o rim.

No olho, a hipertensão pode causar descolamento de retina, hemorragias e cegueira súbita, por vezes o primeiro sinal que leva o gato à consulta. No coração, favorece a hipertrofia ventricular esquerda. No sistema nervoso central, pode se manifestar com letargia, alterações de comportamento ou convulsões. No rim, fecha o ciclo, agravando a lesão renal. Como muitos desses danos podem ser irreversíveis, a aferição de rotina é justamente a ferramenta que permite identificar o problema antes da catástrofe.

O limiar de risco do consenso ACVIM

O consenso ACVIM de 2018 (Acierno e colaboradores) organiza o risco de lesão de órgão-alvo a partir da pressão arterial sistólica (PAS). Nesse esquema, uma PAS igual ou maior que 160 mmHg passa a ser categorizada como de risco aumentado de dano, e valores mais altos elevam ainda mais esse risco. O limiar de 160 mmHg é, portanto, uma referência clínica importante de quando a pressão deixa de ser apenas um número e passa a representar perigo para os órgãos-alvo.

Vale lembrar que um único valor elevado, sobretudo em ambiente estressante como a clínica, não fecha diagnóstico. O efeito do estresse sobre a pressão do gato (o chamado efeito do jaleco branco) é real, e por isso as diretrizes enfatizam técnica de medição padronizada, ambiente calmo, repetição das aferições e interpretação no contexto clínico. A confirmação da hipertensão e a decisão de tratar cabem ao médico-veterinário.

O estadiamento IRIS como referência de manejo

A International Renal Interest Society (IRIS) propõe um sistema de estadiamento da DRC que é referência mundial de manejo. Além de estadiar com base em marcadores renais, o IRIS subclassifica o paciente conforme a proteinúria e a pressão arterial, justamente porque ambas são consequências secundárias comuns da doença renal e influenciam o prognóstico.

Por essa lógica, a própria IRIS recomenda que a pressão arterial seja medida em todos os cães e gatos com DRC. O sistema também prevê que, quando há tratamento anti-hipertensivo em curso, a classificação seja reavaliada para refletir a pressão atual. Os valores de corte específicos do estadiamento e da subclassificação devem ser consultados diretamente nas diretrizes IRIS vigentes e aplicados pelo médico-veterinário, que integra esses dados ao quadro individual de cada paciente.

Como medir bem a pressão no gato

A qualidade da medição é decisiva. As diretrizes ISFM e ACVIM destacam a necessidade de uma técnica reprodutível para que o número signifique algo. Isso passa por escolher o tamanho de manguito adequado, deixar o gato se aclimatar antes da aferição, manter o ambiente tranquilo e silencioso, repetir as leituras e registrar as condições da medição.

É nesse ponto que equipamentos de pressão arterial não invasiva (PANI) desenhados para o paciente veterinário, como o BPScan e o BPScan S da INpulse, somam ao protocolo: medições padronizadas e registro consistente ajudam o clínico a distinguir hipertensão verdadeira de elevação transitória por estresse, e a acompanhar o paciente renal ao longo do tempo. A escolha do método e a interpretação dos valores permanecem responsabilidade do médico-veterinário.

Perguntas frequentes

Todo gato com DRC precisa medir a pressão? As diretrizes ISFM e a IRIS recomendam aferir a pressão arterial em todos os gatos com DRC, justamente porque a hipertensão é comum nesse grupo e costuma ser silenciosa. A frequência do acompanhamento é definida pelo médico-veterinário conforme o estágio e o quadro do paciente.

A pressão alta no gato dá sintomas? Muitas vezes não, até surgir lesão de órgão-alvo. Quando há sinais, podem incluir alterações visuais ou cegueira súbita, mudanças de comportamento e letargia, o que reforça o valor da medição de rotina antes que o dano se instale.

Um valor alto na consulta significa que meu gato é hipertenso? Não necessariamente. O estresse da consulta pode elevar a pressão temporariamente. Por isso as diretrizes recomendam técnica padronizada, ambiente calmo, repetição das medições e interpretação no contexto clínico antes de confirmar o diagnóstico.

A hipertensão piora a doença renal? A relação é de mão dupla: a DRC predispõe à hipertensão e a pressão alta pode, por sua vez, agravar a lesão renal. Esse é um dos motivos pelos quais o controle pressórico faz parte do manejo do paciente renal, sempre conduzido pelo médico-veterinário.

Fontes

  1. ACVIM consensus statement: Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats. (2018) PMID 30353952
  2. ISFM Consensus Guidelines on the Diagnosis and Management of Hypertension in Cats. (2017) PMID 28245741
  3. Proteinuria in cats. Prognostic marker or mediator? (2009) PMID 19237136
  4. IRIS Staging System - International Renal Interest Society (IRIS).