Insuficiência cardíaca congestiva em cães e gatos: causas, sinais e investigação
A insuficiência cardíaca congestiva é o estágio em que o coração não bombeia o suficiente e o líquido se acumula nos pulmões ou cavidades. Veja causas em cães e gatos, sinais de alerta e o papel de ECG, ecocardiograma, radiografia e pressão arterial na investigação.
A insuficiência cardíaca congestiva (ICC) é o estágio clínico em que uma doença cardíaca já compromete a capacidade do coração de bombear sangue de forma eficiente, levando ao acúmulo de líquido (congestão) atrás da câmara afetada: tipicamente edema pulmonar quando o lado esquerdo falha e derrame pleural ou ascite quando o lado direito falha. Não é uma doença isolada, mas a consequência avançada de uma cardiopatia de base. Em cães, a causa mais comum é a doença mixomatosa da valva mitral (degeneração crônica da valva); em gatos, predominam as cardiomiopatias, sobretudo a forma hipertrófica. O diagnóstico e o estadiamento são responsabilidade do médico-veterinário e combinam exame físico com exames complementares (radiografia torácica, ecocardiograma, eletrocardiograma e aferição de pressão arterial), conforme os consensos de cardiologia veterinária.
O que é insuficiência cardíaca congestiva
O termo congestiva descreve o componente mais visível do quadro: o sangue que não avança adequadamente se represa, e a pressão elevada empurra líquido para fora dos vasos. Quando o lado esquerdo do coração está sobrecarregado, esse líquido se acumula nos pulmões (edema pulmonar), comprometendo a troca gasosa. Quando o lado direito está comprometido, a congestão se manifesta como derrame pleural (líquido ao redor dos pulmões), ascite (líquido no abdome) ou edema periférico.
É importante distinguir a doença cardíaca em si (por exemplo, uma valva que vaza ou um músculo espessado) da insuficiência cardíaca, que é o ponto em que essa doença ultrapassa os mecanismos de compensação do organismo. Muitos animais convivem por meses ou anos com cardiopatia em fase pré-clínica, sem sinais de congestão, e só desenvolvem ICC em uma fase mais tardia. Por isso, identificar a doença antes da descompensação muda o acompanhamento.
Causas mais comuns em cães
Em cães, a doença mixomatosa da valva mitral (DMVM, também chamada degeneração valvar crônica ou endocardiose) é a cardiopatia adquirida mais frequente. A valva mitral, que separa as câmaras esquerdas, sofre degeneração progressiva, deixa de fechar por completo e permite o refluxo de sangue. Com o tempo, isso sobrecarrega o átrio e o ventrículo esquerdos e pode evoluir para edema pulmonar. As diretrizes de consenso ACVIM descrevem um sistema de estadiamento por letras (A a D), que vai do animal de risco, sem doença detectável, até a insuficiência cardíaca refratária, orientando quando iniciar acompanhamento e tratamento.
Raças pequenas e de meia-idade a idosas, como Cavalier King Charles Spaniel, Dachshund, Poodle e outras de pequeno porte, têm predisposição reconhecida. Um achado de exame físico que costuma levantar suspeita é o sopro cardíaco, mais audível no lado esquerdo do tórax. A presença de sopro, contudo, indica turbulência de fluxo e não confirma, por si só, insuficiência cardíaca: a definição do estágio depende de exames complementares interpretados pelo médico-veterinário. Em cães com aumento de câmaras já documentado, mas ainda sem sinais de congestão, há evidência de que o início precoce de terapia possa prolongar a fase pré-clínica, decisão que cabe ao profissional.
Causas mais comuns em gatos
Em gatos, a insuficiência cardíaca decorre, na maioria das vezes, de cardiomiopatias, doenças do próprio músculo cardíaco. A cardiomiopatia hipertrófica (CMH), caracterizada por espessamento da parede ventricular esquerda, é a forma mais comum. O consenso ACVIM de cardiomiopatias felinas propõe classificar essas doenças pelo fenótipo (estrutura e função) e estadiá-las, separando os gatos com doença subclínica em grupos de menor e maior risco de complicações.
O grande desafio na espécie felina é que muitos gatos não apresentam sopro audível nem sinais óbvios até uma descompensação aguda. Além do edema pulmonar e do derrame pleural, os gatos com cardiomiopatia têm risco aumentado de tromboembolismo arterial, em que um coágulo formado no coração se aloja, com frequência, na bifurcação da aorta e causa paralisia dolorosa e súbita dos membros posteriores. Esse é um quadro de emergência. Hipertireoidismo e hipertensão arterial sistêmica também podem sobrecarregar o coração felino e devem ser investigados pelo médico-veterinário.
Sinais que devem ligar o alerta
Os sinais de ICC refletem a congestão e a queda do desempenho cardíaco. Os mais relatados são: aumento da frequência ou do esforço respiratório (dispneia), respiração rápida em repouso, tosse (mais típica em cães, frequentemente associada ao aumento do átrio esquerdo), intolerância ao exercício, cansaço fácil, apatia e, em casos avançados, episódios de desmaio (síncope), abdome distendido por ascite ou coloração azulada de mucosas.
Um sinal de monitoramento doméstico útil e validado é a frequência respiratória em repouso ou durante o sono: valores persistentemente acima de cerca de 30 movimentos por minuto em um animal relaxado merecem avaliação. Em gatos, a tosse é incomum, e a respiração de boca aberta (ofegante) costuma indicar sofrimento respiratório significativo, sendo motivo para procurar atendimento imediato. Qualquer animal com respiração muito laboriosa, gengivas pálidas ou arroxeadas, ou paralisia súbita de membros deve ser levado em caráter de urgência, sem esperar.
O papel de cada exame na investigação
Nenhum exame isolado fecha o diagnóstico de ICC; eles se complementam. A radiografia torácica avalia o tamanho da silhueta cardíaca e, sobretudo, a presença de edema pulmonar ou derrame, sendo o exame que mais diretamente confirma a congestão. O ecocardiograma é o pilar para definir a causa e a gravidade: mede câmaras, avalia valvas e músculo, e diferencia, por exemplo, doença mixomatosa de mitral de cardiomiopatia. A aferição da pressão arterial detecta hipertensão sistêmica, que pode causar ou agravar a sobrecarga cardíaca, especialmente em gatos. Em situações de dúvida entre causa cardíaca e respiratória da dispneia, biomarcadores como os peptídeos natriuréticos podem auxiliar a triagem, mas não substituem os exames de imagem, conforme a literatura.
O eletrocardiograma (ECG) tem papel específico e insubstituível na avaliação do ritmo. Ele não mede o tamanho do coração nem confirma congestão, mas é o exame de escolha para identificar e caracterizar arritmias, achado comum em cardiopatias avançadas, como fibrilação atrial em cães com átrios muito dilatados ou taquiarritmias e bloqueios em gatos com cardiomiopatia. Em pacientes com síncope, fraqueza episódica ou pulso irregular, o ECG é essencial. Tecnologias de eletrocardiografia conectada, como o INcardio X (ECG de 12 derivações), e a aferição automatizada de pressão por oscilometria de alta definição, como o BPScan, podem apoiar essa coleta de dados na rotina e o compartilhamento com especialistas; a interpretação e a conduta permanecem sempre a cargo do médico-veterinário.
Quando encaminhar ao cardiologista
O encaminhamento a um médico-veterinário cardiologista ou a um centro com ecocardiografia é recomendável diante de sinais consistentes de cardiopatia ou ICC, e a decisão é sempre clínica. Situações que costumam justificar a referência incluem: sopro cardíaco novo ou progressivo, principalmente em raças predispostas; suspeita de aumento de câmaras na radiografia; arritmia detectada na ausculta ou no ECG; síncope ou intolerância ao exercício; gato com qualquer suspeita cardíaca, dado o curso muitas vezes silencioso; e qualquer animal já em tratamento que descompense.
Diante de sinais agudos, dispneia intensa, respiração de boca aberta em gatos, mucosas arroxeadas ou paralisia súbita de membros, o atendimento de emergência tem prioridade sobre o encaminhamento eletivo. As condutas de estadiamento, tratamento e monitoramento descritas aqui seguem os consensos de cardiologia veterinária, mas este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação presencial: o diagnóstico, a prescrição e o plano de acompanhamento são responsabilidade do médico-veterinário que examina o paciente.
Fontes
- ACVIM consensus guidelines for the diagnosis and treatment of myxomatous mitral valve disease in dogs (2019) PMID 30974015
- ACVIM consensus statement guidelines for the classification, diagnosis, and management of cardiomyopathies in cats (2020) PMID 32243654
- Effect of Pimobendan in Dogs with Preclinical Myxomatous Mitral Valve Disease and Cardiomegaly: The EPIC Study-A Randomized Clinical Trial (2016) PMID 27678080
- Biomarkers for differentiation of causes of respiratory distress in dogs and cats: Part 1--Cardiac diseases and pulmonary hypertension (2015) PMID 26040814