Como interpretar os índices de variabilidade da frequência cardíaca (VFC) no ECG de cães e gatos
Guia clínico dos índices de VFC no ECG de cães e gatos: domínio do tempo (SDNN, RMSSD, pNN50), domínio da frequência (LF, HF, LF/HF) e métodos geométricos como o plot de Poincaré, com a leitura cautelosa que a espécie exige.
Interpretar a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) no ECG de cães e gatos significa traduzir a oscilação batimento a batimento dos intervalos RR (intervalos NN, normais entre si) em índices que refletem a modulação autonômica do coração. Esses índices agrupam-se em três famílias: domínio do tempo (SDNN, SDANN, RMSSD, pNN50), domínio da frequência (bandas LF e HF e a razão LF/HF) e métodos geométricos ou não lineares (plot de Poincaré, histograma e índice triangular). Em cães saudáveis, a arritmia sinusal respiratória é tão pronunciada que valores de VFC altíssimos são fisiológicos, e não patológicos: o ponto de partida da leitura é sempre a espécie, o estado do animal e a qualidade do sinal, nunca um número isolado importado de outra área. A decisão clínica permanece sempre do médico-veterinário.
Antes de calcular: qualidade do sinal, ectopias e artefatos
A VFC só é confiável sobre uma série de intervalos verdadeiramente normais (NN), originados no nó sinusal. Por isso, a etapa de maior peso clínico vem antes de qualquer índice: revisar o traçado e remover complexos prematuros atriais ou ventriculares, batimentos de escape, pausas e artefatos de movimento. Um único batimento ectópico ou um artefato confundido com QRS gera um intervalo RR espúrio que infla artificialmente índices sensíveis a diferenças sucessivas, como RMSSD e pNN50. Nos estudos de referência de VFC de curto prazo em cães saudáveis, a inspeção automática seguida de revisão manual para eliminar extrassístoles atriais e ventriculares foi um passo explícito antes do cálculo, justamente porque o cão saudável já tem grande variabilidade fisiológica que precisa ser separada do ruído.
Na prática, isso pede um registro adequado: derivação estável, boa fixação dos eletrodos e tempo de aquisição compatível com o índice desejado. Janelas curtas em ambiente de consultório servem para alguns parâmetros, mas a estratificação prognóstica robusta na cardiopatia costuma vir de registros de Holter de 24 horas, que capturam o ciclo completo de sono, repouso e atividade. Sem essa higiene do sinal, todo o resto da interpretação fica comprometido.
Domínio do tempo: SDNN, SDANN, RMSSD e pNN50
Os índices de tempo descrevem, em milissegundos, o quanto os intervalos NN variam. O SDNN (desvio-padrão de todos os intervalos NN) é o índice mais global: reflete a variabilidade total, com contribuição tanto simpática quanto parassimpática, e é fortemente dependente da duração do registro. O SDANN, desvio-padrão das médias de NN em segmentos curtos (tipicamente de 5 minutos ao longo das 24 horas), capta as oscilações lentas e os ciclos circadianos, ou seja, a estrutura de longo prazo da variabilidade.
Já o RMSSD (raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças entre intervalos sucessivos) e o pNN50 (proporção de intervalos sucessivos que diferem em mais de 50 ms) capturam a variabilidade rápida, batimento a batimento. Ambos refletem predominantemente o tônus parassimpático (vagal) de curto prazo, e é exatamente por isso que se mostram marcadamente altos no cão saudável: a arritmia sinusal respiratória, mediada pelo vago, faz o intervalo encurtar na inspiração e alongar na expiração, elevando RMSSD e pNN50 a patamares que, fora do contexto da espécie, soariam exagerados. Em séries de cães saudáveis, valores de RMSSD na casa das centenas de milissegundos e pNN50 acima de 70% foram descritos como normais. A leitura clínica útil é a tendência: a queda desses índices, sobretudo dos vagais, acompanha a perda de modulação autonômica na progressão de doenças cardíacas e sistêmicas.
Domínio da frequência: bandas LF, HF e a razão LF/HF
A análise espectral decompõe a série de intervalos em componentes de frequência. A banda de alta frequência (HF) corresponde, em grande parte, à arritmia sinusal respiratória e é um marcador robusto da atividade parassimpática. A banda de baixa frequência (LF) sofre influência mista, simpática e parassimpática, modulada pelo barorreflexo. Há ainda a banda de muito baixa frequência (VLF), de interpretação fisiológica menos definida. Em cães saudáveis, a forte modulação vagal se traduz em HF elevado e, consequentemente, em razões LF/HF baixas, o que reforça que o predomínio vagal é o estado basal esperado da espécie.
A razão LF/HF é frequentemente apresentada como índice de balanço simpatovagal, mas merece leitura cautelosa no animal. A premissa de que LF representa puramente o tônus simpático é uma simplificação herdada da fisiologia humana e contestada mesmo nela; em cães e gatos, com sua arritmia sinusal respiratória intensa e respiração variável, a separação entre as bandas e a normalização (LFnorm, HFnorm) dependem fortemente das condições de registro. Estudos felinos mostraram que manobras farmacológicas deslocam o balanço com queda de HFnorm e aumento de LFnorm de forma coerente com retirada vagal e reforço simpático, o que valida a direção do sinal, mas não autoriza tratar a LF/HF como medida absoluta e isolada de tônus simpático. Use-a como tendência dentro do mesmo animal e do mesmo protocolo, não como número universal.
Métodos geométricos e não lineares: Poincaré, histograma e índice triangular
Os métodos geométricos resumem a distribuição dos intervalos. O histograma de intervalos NN e o índice triangular (área do histograma dividida pela altura do pico) oferecem uma medida de variabilidade global pouco sensível a artefatos isolados, vantagem prática em registros longos. O plot de Poincaré (ou de Lorenz) representa cada intervalo contra o seguinte, formando uma nuvem cuja largura (SD1) reflete a variabilidade rápida, de natureza vagal, e cujo comprimento (SD2) reflete a variabilidade de longo prazo; a forma da nuvem é interpretada visualmente além das medidas.
No cão, o plot de Poincaré revela algo particular: o ritmo sinusal não é apenas variável, é não linear. Trabalho de cardiologia veterinária mostrou que cães, ao contrário do padrão humano, exibem distribuições de intervalos com agrupamentos, ramificações e zonas de escassez de batimentos, e que esses padrões não lineares dependem da modulação parassimpática, sendo abolidos pela atropina. Isso tem consequência clínica direta: a beleza diagnóstica está na forma do plot, não apenas em um índice numérico. Em casos de perda de variabilidade com predomínio simpático, descritos em cães com doença sistêmica grave, o plot de Poincaré se contrai e perde sua estrutura ramificada, em concordância com os índices reduzidos de tempo e frequência. Por isso os métodos geométricos complementam, e não substituem, os domínios do tempo e da frequência.
Levando a VFC para a rotina clínica, com prudência
A VFC não é um diagnóstico em si: é uma janela para a modulação autonômica que ganha valor quando lida em série, no mesmo paciente, sob condições padronizadas. Reduções da VFC global e dos índices vagais têm sido associadas à progressão e ao pior prognóstico em cardiopatias caninas, mas os pontos de corte variam com raça, porte, idade, estado emocional e protocolo de aquisição, e ainda carecem de padronização ampla na medicina veterinária. O comportamento do paciente importa: estresse, dor e excitação no consultório reduzem a VFC de forma aguda e podem mascarar o quadro de base.
A recomendação prática é integrar a VFC ao restante da avaliação cardiológica, ECG morfológico, exame físico, pressão arterial e ecocardiograma, e nunca isolá-la. Plataformas conectadas de ECG, como o ecossistema INpulse com os eletrocardiógrafos INcardio X e INcardio Agile integrados ao INpulse One e ao INcloud, podem facilitar a aquisição de sinal limpo e o acompanhamento longitudinal dos mesmos índices ao longo do tempo. Ainda assim, a interpretação dos índices de VFC e qualquer conduta dela derivada são, sempre, responsabilidade do médico-veterinário.
Fontes
- Short-term heart rate variability (HRV) in healthy dogs (2015) PMID 26172180
- Correlations among time and frequency measures of heart rate variability recorded by use of a Holter monitor in overtly healthy Doberman pinschers with and without echocardiographic evidence of dilated cardiomyopathy (2001) PMID 11703025
- Evaluation of a technique to measure heart rate variability in anaesthetised cats (2013) PMID 24321367
- Vagally Associated Second Degree Atrio-Ventricular Block in a Dog with Severe Azotemia and Evidence of Sympathetic Overdrive (2022) PMID 35622751